O faturamento não estava ruim.
A empresa vendia aproximadamente R$ 500.000,00 por mês, possuía uma carteira estável de clientes e, olhando apenas para a movimentação comercial, parecia saudável.
Mesmo assim, o resultado incomodava os sócios.
Depois de fornecedores, tributos, comissões, salários, aluguel, taxas financeiras e demais despesas, restavam aproximadamente R$ 20.000,00 por mês.
A margem líquida era de apenas 4%.
Durante a reunião mensal, surgiu a solução aparentemente mais óbvia:
— Precisamos vender mais.
A equipe comercial recebeu uma meta maior. Foram planejadas campanhas, descontos e aumento do investimento em publicidade.
Antes de executar o plano, porém, alguém fez outra pergunta:
— E se vendermos mais exatamente da mesma forma que estamos vendendo hoje?
A pergunta mudou completamente a análise.
Se a empresa aumentasse as vendas utilizando descontos, maior comissão, mais estoque e mais capital de giro, poderia faturar mais sem melhorar proporcionalmente o lucro.
Em alguns cenários, poderia até piorar o caixa.
Foi então que a gestão decidiu analisar a empresa de maneira diferente.
Em vez de começar pelo faturamento, começou pela Demonstração do Resultado.
A estrutura simplificada era esta:
| Demonstração gerencial | Valor mensal | % da receita |
|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 500.000,00 | 100% |
| Custo das mercadorias vendidas | R$ 300.000,00 | 60% |
| Despesas variáveis | R$ 50.000,00 | 10% |
| Margem de contribuição | R$ 150.000,00 | 30% |
| Despesas fixas operacionais | R$ 120.000,00 | 24% |
| Despesas financeiras | R$ 10.000,00 | 2% |
| Lucro líquido gerencial | R$ 20.000,00 | 4% |
O problema ficou evidente.
Para cada R$ 100,00 de receita, apenas R$ 4,00 estavam chegando ao resultado final.
Isso também significava que pequenas melhorias em diferentes pontos da operação poderiam produzir um impacto proporcionalmente muito maior no lucro.
Foi exatamente o que aconteceu.
A empresa não precisou dobrar as vendas.
Não precisou abrir uma nova unidade.
Não precisou contratar uma equipe comercial inteira.
Ao revisar preço, compras, despesas variáveis, estoque e custos fixos, conseguiu elevar substancialmente o resultado mantendo praticamente o mesmo volume de vendas.
Esse é o ponto central para quem procura entender como aumentar o lucro da empresa: o faturamento é apenas uma das variáveis da equação.
A fórmula econômica básica continua sendo simples:
Lucro = receitas – custos – despesas
A complexidade está em descobrir qual componente possui espaço para melhoria sem comprometer a capacidade de geração de receita.
O próprio Sebrae trabalha margem de contribuição, controle de custos, DRE e lucratividade como instrumentos fundamentais para melhorar a gestão financeira. A margem de contribuição mostra quanto resta depois dos custos e despesas variáveis para pagar a estrutura fixa e, somente depois disso, formar lucro.
Antes de pensar em como aumentar o lucro da empresa, descubra onde ele está sendo perdido
A primeira reação de muitos gestores diante de um lucro baixo é cortar despesas.
Isso pode funcionar, mas não deveria ser o primeiro movimento automático.
Uma empresa não possui apenas “gastos”. Ela possui recursos consumidos para diferentes finalidades.
Existem despesas que geram vendas, despesas que sustentam processos essenciais, gastos improdutivos e desperdícios.
Cortar todos da mesma maneira é um erro.
Imagine uma empresa que decide reduzir 10% de todas as despesas.
Ela economiza no treinamento dos vendedores, reduz campanhas eficientes de marketing, elimina uma ferramenta que automatizava o financeiro e também corta pequenos desperdícios.
O resultado poderá ser uma redução de despesas acompanhada por queda ainda maior de produtividade ou receita.
Melhorar lucro exige precisão.
O conceito de Lean Management ajuda a compreender essa diferença: o objetivo não é simplesmente gastar menos, mas identificar atividades e recursos que não agregam valor, eliminando desperdícios e aumentando a produtividade.
Por isso, antes de qualquer corte, a empresa deveria organizar sua DRE em níveis.
| Nível de análise | Pergunta principal |
|---|---|
| Receita | Estamos cobrando corretamente? |
| CMV ou custo do serviço | Estamos comprando ou produzindo bem? |
| Margem bruta | Quanto sobra depois do custo principal? |
| Despesas variáveis | Quanto custa realizar cada venda? |
| Margem de contribuição | Quanto cada venda deixa para a estrutura? |
| Despesas fixas | A estrutura é compatível com o faturamento? |
| Resultado operacional | A atividade principal é rentável? |
| Financeiro | Quanto juros e dívidas consomem? |
| Lucro líquido | Quanto realmente sobra? |
Esse modelo transforma a pergunta genérica “como aumentar o lucro?” em perguntas menores e mais gerenciáveis.
O efeito da alavancagem operacional sobre o lucro
Quando a margem líquida é pequena, uma pequena melhoria operacional pode representar uma grande variação percentual no lucro.
Retomemos a empresa com receita mensal de R$ 500.000,00 e lucro de R$ 20.000,00.
Se ela conseguir melhorar o resultado em apenas R$ 10.000,00, o lucro passa para R$ 30.000,00.
O aumento do lucro foi de 50%.
A receita não precisou crescer 50%.
Esse efeito acontece porque o resultado é o valor residual depois de todos os demais componentes.
Veja:
| Situação | Receita | Lucro | Margem líquida |
|---|---|---|---|
| Antes | R$ 500.000,00 | R$ 20.000,00 | 4% |
| Depois | R$ 500.000,00 | R$ 30.000,00 | 6% |
| Variação | 0% | +50% | +2 p.p. |
Esse é um dos conceitos mais importantes deste artigo.
Aumentar o lucro não exige necessariamente um crescimento proporcional das vendas.
Às vezes, o resultado está escondido em pequenos percentuais distribuídos pela operação.
Primeira alavanca: melhorar o preço médio em vez de simplesmente vender mais
Preço é uma das variáveis mais poderosas da DRE.
Quando o preço aumenta e o volume permanece semelhante, grande parte da receita adicional pode chegar diretamente à margem de contribuição, desde que os custos variáveis sejam adequadamente considerados.
Considere novamente a empresa com R$ 500.000,00 de receita.
Vamos imaginar que ela consiga aumentar o preço médio em 2%, sem redução relevante do volume.
A nova receita passa para aproximadamente R$ 510.000,00.
Se o CMV absoluto permanecer em torno de R$ 300.000,00 porque a quantidade comercializada permaneceu igual, e as despesas variáveis representarem aproximadamente 10% da receita, teremos:
| DRE simplificada | Antes | Após aumento médio de 2% |
|---|---|---|
| Receita | R$ 500.000,00 | R$ 510.000,00 |
| CMV | R$ 300.000,00 | R$ 300.000,00 |
| Variáveis | R$ 50.000,00 | R$ 51.000,00 |
| Margem de contribuição | R$ 150.000,00 | R$ 159.000,00 |
| Fixas | R$ 120.000,00 | R$ 120.000,00 |
| Financeiras | R$ 10.000,00 | R$ 10.000,00 |
| Lucro | R$ 20.000,00 | R$ 29.000,00 |
Um aumento médio de 2% no preço produziu, neste exemplo, aumento de 45% no lucro.
É evidente que a empresa não pode simplesmente reajustar todos os produtos indiscriminadamente.
A elasticidade da demanda, a concorrência, o valor percebido e a estratégia comercial precisam ser considerados.
Mas esse exemplo demonstra por que empresas que negociam sempre pelo menor preço podem estar sacrificando um valor enorme de resultado.
O Sebrae/SC ressalta que a precificação deve integrar custos, despesas e margem e que o preço precisa ser suficiente para preservar a rentabilidade e a sustentabilidade financeira do negócio.
A análise correta não é “quanto aumentar o preço?”, mas “onde existe espaço?”
Uma empresa dificilmente deve aplicar o mesmo reajuste a todo o catálogo.
O ideal é analisar produtos por margem e sensibilidade comercial.
Uma matriz simples pode ajudar:
| Produto | Receita mensal | Margem de contribuição | Concorrência | Possível decisão |
|---|---|---|---|---|
| Produto A | R$ 80.000,00 | 18% | Alta | Revisar custo antes de preço |
| Produto B | R$ 50.000,00 | 42% | Baixa | Testar aumento gradual |
| Produto C | R$ 120.000,00 | 27% | Média | Avaliar redução de descontos |
| Produto D | R$ 30.000,00 | 8% | Alta | Verificar se deve permanecer no mix |
| Produto E | R$ 70.000,00 | 38% | Baixa | Preservar disponibilidade e margem |
Aumentar o lucro da empresa passa, portanto, por abandonar a ideia de uma margem única para todos os produtos.
Alguns itens podem suportar reajustes.
Outros precisam de melhor negociação com fornecedores.
Alguns são estratégicos mesmo com margem menor.
E determinados produtos podem simplesmente não justificar o capital e o esforço consumidos.
Segunda alavanca: melhorar o custo de compra
Em empresas comerciais, o CMV costuma representar uma parcela relevante do faturamento.
Por isso, pequenas alterações no custo médio podem transformar o resultado.
Na empresa do exemplo, o custo mensal das mercadorias vendidas é de R$ 300.000,00.
Imagine que uma estratégia de compras reduza esse custo médio em 3%.
Economia:
3% de R$ 300.000,00 = R$ 9.000,00
Novo CMV:
R$ 291.000,00.
Mantidas as demais premissas:
| DRE | Antes | Após redução de 3% no CMV |
|---|---|---|
| Receita | R$ 500.000,00 | R$ 500.000,00 |
| CMV | R$ 300.000,00 | R$ 291.000,00 |
| Despesas variáveis | R$ 50.000,00 | R$ 50.000,00 |
| Fixas | R$ 120.000,00 | R$ 120.000,00 |
| Financeiras | R$ 10.000,00 | R$ 10.000,00 |
| Lucro | R$ 20.000,00 | R$ 29.000,00 |
Novamente, uma melhoria pequena criou aumento de 45% no resultado.
A redução não precisa vir apenas de pedir desconto.
Uma gestão profissional de compras deve avaliar volume, prazo, frete, bonificação, prazo de reposição, devoluções, custo financeiro e confiabilidade do fornecedor.
Uma condição aparentemente mais barata pode ser pior se exigir excesso de estoque.
O custo mais baixo nem sempre é a melhor compra
Imagine dois fornecedores.
| Condição | Fornecedor A | Fornecedor B |
|---|---|---|
| Custo unitário | R$ 95,00 | R$ 100,00 |
| Quantidade mínima | 1.000 | 300 |
| Prazo de pagamento | 15 dias | 45 dias |
| Prazo de entrega | 30 dias | 5 dias |
| Risco de estoque | Alto | Menor |
O fornecedor A possui menor preço unitário.
Mas obriga a empresa a aplicar R$ 95.000,00 em estoque.
O fornecedor B exige apenas R$ 30.000,00 para uma compra de 300 unidades e oferece prazo maior.
Dependendo do giro e do custo de capital, a segunda opção pode ser economicamente superior.
Por isso, quem procura como aumentar o lucro da empresa precisa analisar custo total, não apenas preço da nota fiscal.
Terceira alavanca: trabalhar o mix de produtos
Nem sempre é necessário vender mais unidades.
Pode ser suficiente vender uma composição melhor.
Imagine que uma empresa realize 1.000 vendas mensais.
O volume permanece constante.
No cenário atual:
| Categoria | Unidades | Contribuição por unidade | Contribuição total |
|---|---|---|---|
| Baixa margem | 500 | R$ 20,00 | R$ 10.000,00 |
| Média margem | 300 | R$ 50,00 | R$ 15.000,00 |
| Alta margem | 200 | R$ 90,00 | R$ 18.000,00 |
| Total | 1.000 | — | R$ 43.000,00 |
Depois de treinamento comercial e reorganização da exposição, a composição muda:
| Categoria | Unidades | Contribuição por unidade | Contribuição total |
|---|---|---|---|
| Baixa margem | 350 | R$ 20,00 | R$ 7.000,00 |
| Média margem | 350 | R$ 50,00 | R$ 17.500,00 |
| Alta margem | 300 | R$ 90,00 | R$ 27.000,00 |
| Total | 1.000 | — | R$ 51.500,00 |
A quantidade total permaneceu em 1.000 unidades.
A contribuição aumentou de R$ 43.000,00 para R$ 51.500,00.
A melhoria foi de aproximadamente 19,8%.
Esse é o conceito de gestão do mix.
O objetivo não é necessariamente empurrar ao cliente o produto de maior preço, mas entender quais itens conciliam valor para o consumidor, giro, margem e uso eficiente da estrutura.
Quarta alavanca: reduzir descontos invisíveis
Muitas empresas calculam corretamente o preço de tabela e perdem o resultado no balcão.
Suponha um produto vendido por R$ 200,00 com margem de contribuição de R$ 60,00.
Um desconto de 10% reduz o preço para R$ 180,00.
Se os custos fixos por unidade não mudarem e parte dos custos variáveis permanecer semelhante, a margem poderá cair de maneira muito superior aos 10% de redução do preço.
É comum um desconto de 10% consumir 25%, 30% ou mais da margem de contribuição, dependendo da estrutura.
Por isso, o gestor deve acompanhar três indicadores:
| Indicador | Exemplo |
|---|---|
| Preço de tabela | R$ 200,00 |
| Preço médio efetivo | R$ 186,00 |
| Desconto médio | 7% |
O preço que realmente importa para a DRE é o preço efetivamente praticado.
Uma empresa que acredita vender a R$ 200,00, mas recebe em média R$ 186,00, possui um problema de execução comercial.
Quinta alavanca: reduzir custos variáveis por venda
Despesas variáveis podem parecer pequenas individualmente, mas têm impacto direto na contribuição.
Na empresa do nosso exemplo, elas representam 10% da receita, ou R$ 50.000,00.
Se a empresa reduzir o percentual de 10% para 9%, sem alterar o faturamento:
Economia:
R$ 5.000,00.
O lucro passa de R$ 20.000,00 para R$ 25.000,00.
Isso representa aumento de 25% no resultado.
As oportunidades podem estar em taxas de cartão, frete, comissões, embalagens, devoluções, tarifas de marketplace, perdas comerciais ou serviços proporcionais à venda.
A margem de contribuição é justamente o indicador adequado para esse tipo de análise: ela demonstra quanto da receita permanece depois dos custos e despesas variáveis para pagar a estrutura fixa e formar o lucro.
Sexta alavanca: reduzir despesas fixas sem prejudicar a capacidade produtiva
Chegamos ao ponto mais associado à ideia de aumentar lucro: cortar despesas.
Mas a análise precisa ser técnica.
Na empresa do exemplo:
Despesas fixas: R$ 120.000,00.
Uma redução de 5% equivale a:
R$ 6.000,00.
Mantido o restante:
Lucro anterior: R$ 20.000,00.
Novo lucro: R$ 26.000,00.
Aumento de 30%.
O potencial é relevante.
Porém, o gestor precisa distinguir eficiência de empobrecimento operacional.
Uma matriz simples pode ajudar:
| Despesa | Custo mensal | Valor gerado | Decisão |
|---|---|---|---|
| Software pouco utilizado | R$ 2.500,00 | Baixo | Cancelar ou renegociar |
| Treinamento comercial | R$ 3.000,00 | Melhora conversão | Preservar |
| Aluguel de espaço ocioso | R$ 8.000,00 | Baixo | Reavaliar estrutura |
| Marketing mensurável | R$ 12.000,00 | Retorno positivo | Otimizar, não eliminar |
| Retrabalho administrativo | R$ 5.000,00 estimados | Nenhum | Automatizar processo |
A pergunta certa não é “qual despesa posso cortar?”
É:
“Qual recurso custa dinheiro e não gera valor proporcional?”
Sétima alavanca: reduzir desperdícios e retrabalho
Nem todo custo aparece claramente na DRE.
Existem desperdícios operacionais escondidos em:
- erros de cadastro;
- retrabalho;
- produtos avariados;
- horas extras evitáveis;
- devoluções;
- deslocamentos;
- aprovações manuais;
- lançamentos duplicados;
- estoque incorreto;
- compras urgentes;
- tarefas que poderiam ser automatizadas.
O pensamento Lean trata desperdício como atividade que consome recursos sem agregar valor ao cliente e busca produtividade por meio de melhoria contínua.
Imagine um processo administrativo que exige 120 horas mensais.
Depois da padronização e automação, cai para 70 horas.
A economia não precisa significar demissão.
As 50 horas liberadas podem ser direcionadas a:
- cobrança;
- relacionamento com clientes;
- análise financeira;
- conferência fiscal;
- vendas;
- controles internos.
Produtividade também é uma forma de aumentar o lucro.
O indicador mais útil é receita ou lucro por hora trabalhada?
Considere duas linhas de serviço.
| Serviço | Receita | Horas consumidas | Margem de contribuição | Contribuição por hora |
|---|---|---|---|---|
| Serviço A | R$ 20.000,00 | 200h | R$ 8.000,00 | R$ 40,00/h |
| Serviço B | R$ 15.000,00 | 80h | R$ 7.200,00 | R$ 90,00/h |
O Serviço A fatura mais.
O Serviço B utiliza significativamente menos recursos para gerar quase a mesma contribuição.
Quando existe limitação de equipe, espaço ou máquinas, analisar lucro ou contribuição por unidade do recurso restritivo pode ser mais importante do que analisar apenas faturamento.
Oitava alavanca: transformar estoque parado em capital produtivo
Estoque excessivo afeta o lucro de maneira direta e indireta.
Existe o custo explícito de:
- perdas;
- vencimentos;
- avarias;
- obsolescência;
- armazenagem.
E existe o custo financeiro do capital imobilizado.
Considere R$ 300.000,00 em estoque, dos quais R$ 80.000,00 não apresentam movimentação relevante há meses.
Esse dinheiro poderia estar:
- reduzindo dívida;
- financiando produtos de alto giro;
- preservando caixa;
- evitando antecipação de recebíveis.
O problema do estoque parado não é apenas ocupar espaço.
É consumir capital sem entregar margem.
Uma análise ABC combinada com giro e margem pode ajudar:
| Classe gerencial | Giro | Margem | Ação |
|---|---|---|---|
| A | Alto | Alta | Priorizar disponibilidade |
| B | Alto | Baixa | Negociar custos |
| C | Baixo | Alta | Controlar cobertura |
| D | Baixo | Baixa | Reduzir ou descontinuar |
Essa classificação pode ser muito mais útil do que simplesmente listar os produtos de maior faturamento.
Nona alavanca: reduzir o custo financeiro
Uma empresa pode possuir uma boa margem operacional e perder resultado no financeiro.
Retomemos a DRE inicial.
Despesas financeiras:
R$ 10.000,00 por mês.
Isso corresponde a R$ 120.000,00 em um ano.
Imagine que a empresa consiga reduzir esse valor para R$ 6.000,00 por meio de:
- renegociação de dívida;
- redução da antecipação de recebíveis;
- melhoria do capital de giro;
- revisão de tarifas;
- melhor gestão dos prazos.
Economia mensal:
R$ 4.000,00.
Lucro:
R$ 24.000,00 em vez de R$ 20.000,00.
Aumento de 20%.
Esse ganho não exigiu uma única venda adicional.
É por isso que a DRE deve separar claramente resultado operacional e resultado financeiro.
A empresa precisa saber se sua atividade é pouco lucrativa ou se uma operação saudável está sendo consumida pelo endividamento.
Décima alavanca: revisar tributação e cadastro fiscal
Eficiência tributária não significa simplesmente “pagar menos imposto”.
Significa aplicar corretamente a legislação e evitar tanto recolhimentos indevidos quanto riscos fiscais.
A análise pode envolver:
- regime tributário;
- segregação correta de receitas;
- classificação fiscal;
- aproveitamento legítimo de créditos;
- benefícios aplicáveis;
- incidências específicas;
- cadastro de produtos;
- operações interestaduais.
Uma empresa pode possuir boa margem comercial e perder rentabilidade por utilizar parâmetros fiscais incorretos.
Em 2026, esse tema ganha importância adicional devido à transição da Reforma Tributária e às mudanças progressivas envolvendo CBS e IBS. A estratégia deve ser analisada de forma integrada à formação de preços e aos sistemas da empresa, não apenas no momento de entregar a obrigação fiscal.
O efeito combinado: como aumentar o lucro da empresa sem vender uma unidade a mais
Agora vamos combinar algumas melhorias moderadas, sem aumentar o faturamento.
Situação inicial:
| DRE inicial | Valor |
|---|---|
| Receita | R$ 500.000,00 |
| CMV | R$ 300.000,00 |
| Despesas variáveis | R$ 50.000,00 |
| Fixas | R$ 120.000,00 |
| Financeiras | R$ 10.000,00 |
| Lucro | R$ 20.000,00 |
A empresa consegue:
- reduzir o CMV em 2%;
- reduzir as variáveis de 10% para 9%;
- reduzir as despesas fixas em 5%;
- reduzir despesas financeiras em R$ 2.000,00.
Novo cenário
CMV:
R$ 300.000,00 × 98% = R$ 294.000,00.
Despesas variáveis:
9% de R$ 500.000,00 = R$ 45.000,00.
Despesas fixas:
R$ 120.000,00 × 95% = R$ 114.000,00.
Financeiras:
R$ 8.000,00.
| Comparação | Antes | Depois |
|---|---|---|
| Receita | R$ 500.000,00 | R$ 500.000,00 |
| CMV | R$ 300.000,00 | R$ 294.000,00 |
| Variáveis | R$ 50.000,00 | R$ 45.000,00 |
| Fixas | R$ 120.000,00 | R$ 114.000,00 |
| Financeiras | R$ 10.000,00 | R$ 8.000,00 |
| Lucro | R$ 20.000,00 | R$ 39.000,00 |
| Margem líquida | 4% | 7,8% |
O faturamento ficou exatamente igual.
O lucro aumentou de R$ 20.000,00 para R$ 39.000,00.
Aumento de:
95%
Nenhuma das melhorias isoladamente era extraordinária.
O resultado veio da soma de pequenas eficiências.
Essa é uma das respostas mais importantes para quem pesquisa como aumentar o lucro da empresa.
Vender mais ainda é importante?
Sim.
Não existe qualquer argumento contra crescimento de vendas.
O problema é crescer antes de corrigir uma operação ineficiente.
Considere duas empresas.
Empresa A
Receita: R$ 500.000,00.
Margem líquida: 4%.
Lucro: R$ 20.000,00.
Para obter R$ 40.000,00 mantendo exatamente a mesma margem, a empresa precisaria dobrar sua receita para R$ 1.000.000,00.
Esse crescimento provavelmente exigiria mais:
- estoque;
- vendedores;
- crédito;
- logística;
- capital de giro;
- estrutura.
Agora imagine que a empresa melhore sua margem líquida para 8%.
Com os mesmos R$ 500.000,00:
Lucro = R$ 40.000,00.
A empresa atingiu o mesmo resultado sem dobrar a operação.
Depois que a eficiência melhora, aumentar vendas passa a ter um efeito ainda mais poderoso.
O lucro deve ser analisado por empresa, unidade, produto e cliente
Uma DRE consolidada pode esconder problemas.
Considere duas filiais:
| Unidade | Receita | Lucro |
|---|---|---|
| Araranguá | R$ 300.000,00 | R$ 36.000,00 |
| Criciúma | R$ 250.000,00 | -R$ 16.000,00 |
| Consolidado | R$ 550.000,00 | R$ 20.000,00 |
A empresa consolidada apresenta lucro.
Mas uma unidade está consumindo quase metade do resultado gerado pela outra.
Sem segmentação, a gestão pode concluir que possui “margem baixa”.
Com a análise por unidade, surge uma pergunta mais útil:
Por que Criciúma está gerando prejuízo?
O mesmo raciocínio vale para:
- produtos;
- vendedores;
- clientes;
- canais;
- contratos;
- regiões.
Nem todo cliente que compra muito é lucrativo
Imagine:
| Cliente | Receita mensal | Margem de contribuição | Custos adicionais | Resultado gerado |
|---|---|---|---|---|
| Cliente A | R$ 100.000,00 | 15% | R$ 8.000,00 | R$ 7.000,00 |
| Cliente B | R$ 60.000,00 | 30% | R$ 3.000,00 | R$ 15.000,00 |
O Cliente A fatura mais.
O Cliente B gera mais que o dobro de resultado.
O primeiro pode exigir:
- prazo maior;
- desconto;
- entregas especiais;
- atendimento;
- devoluções;
- limite de crédito.
Uma gestão baseada apenas em faturamento tende a premiar clientes e produtos errados.
O contexto de Santa Catarina em 2026 reforça a importância da eficiência
O Panorama Setorial das MPEs do Sebrae/SC referente ao primeiro trimestre de 2026 identificou um cenário de maior cautela para os pequenos negócios catarinenses. Mais de 42% dos empresários consultados relataram redução de faturamento em comparação com o mesmo período anterior, enquanto custos operacionais e preservação do caixa aparecem entre as preocupações do período. O próprio relatório destaca eficiência operacional e adaptação como fatores estratégicos nesse ambiente.
O Boletim InfoEconomia do Sebrae/SC chega a uma conclusão semelhante: em uma economia mais seletiva e competitiva, o desafio passa menos por simplesmente acelerar e mais por crescer com produtividade, inovação e eficiência.
No varejo nacional, os dados de maio de 2026 também mostram um ambiente de crescimento moderado: o volume de vendas avançou 0,4% em relação a maio de 2025 e acumulava 1,7% no ano. Esse tipo de cenário reforça que o empresário não deve depender exclusivamente de expansão do mercado para melhorar seu resultado.
Para empresas de Araranguá, Criciúma e outras cidades catarinenses, essa abordagem é especialmente relevante.
O crescimento de margem pode vir de processos que estão dentro do controle da própria gestão:
- compras;
- estoque;
- preços;
- produtividade;
- prazos;
- custos financeiros;
- estrutura.
A DRE deve deixar de ser um documento do contador e virar ferramenta do empresário
A contabilidade não deveria servir apenas para cumprir obrigações.
A Demonstração do Resultado mostra o desempenho econômico e permite identificar onde a margem está sendo criada ou destruída. O Conselho Federal de Contabilidade mantém normas específicas para pequenas empresas e microentidades, com demonstrações contábeis estruturadas para representar posição financeira, desempenho e fluxos da entidade.
Para gestão, uma DRE mensal deveria permitir pelo menos esta leitura:
| Indicador | Mês atual | Mês anterior | Meta |
|---|---|---|---|
| Receita | R$ 500.000,00 | R$ 490.000,00 | R$ 500.000,00 |
| Margem bruta | 40% | 38% | 41% |
| Margem de contribuição | 30% | 28% | 32% |
| Despesas fixas | 24% | 25% | 22% |
| Resultado operacional | 6% | 3% | 10% |
| Despesas financeiras | 2% | 2,5% | 1% |
| Margem líquida | 4% | 0,5% | 9% |
Com esse painel, a reunião gerencial deixa de discutir apenas “quanto vendemos”.
Passa a discutir:
por que a margem mudou?
Um método prático para os próximos 90 dias
Em vez de implantar dezenas de projetos simultaneamente, a empresa pode realizar um ciclo trimestral de melhoria.
No primeiro mês, o foco deve ser construir uma DRE confiável e segmentar os principais produtos, canais e despesas. Não é possível melhorar o que ainda não é medido corretamente.
No segundo mês, a administração pode escolher de três a cinco alavancas com maior potencial financeiro. Se a empresa possui R$ 300.000,00 de CMV, provavelmente uma melhoria de compras merece mais atenção do que uma assinatura de R$ 100,00 por mês.
No terceiro mês, os resultados devem ser medidos novamente.
Uma tabela de iniciativas ajuda:
| Projeto | Situação atual | Meta | Ganho mensal estimado |
|---|---|---|---|
| Negociação dos 10 maiores fornecedores | CMV 60% | 58,5% | R$ 7.500,00 |
| Redução do desconto médio | 7% | 5,5% | R$ 5.000,00 |
| Estoque sem giro | R$ 120.000,00 | R$ 60.000,00 | Liberação de caixa |
| Taxas financeiras | R$ 10.000,00 | R$ 7.000,00 | R$ 3.000,00 |
| Despesas fixas improdutivas | R$ 15.000,00 | R$ 10.000,00 | R$ 5.000,00 |
O plano deixa de ser “economizar”.
Passa a ser um conjunto de projetos mensuráveis.
Os indicadores que realmente mostram se o lucro melhorou
A empresa deve comparar pelo menos:
| Indicador | O que revela |
|---|---|
| Margem bruta | Eficiência de preço e custo principal |
| Margem de contribuição | Quanto as vendas deixam para a estrutura |
| Margem líquida | Resultado final |
| CMV sobre receita | Evolução dos custos de compra ou produção |
| Despesas fixas sobre receita | Peso da estrutura |
| Despesas financeiras sobre receita | Custo do endividamento |
| Giro de estoque | Eficiência do capital aplicado |
| Contribuição por produto | Rentabilidade do mix |
| Resultado por unidade | Eficiência de filiais |
| Resultado por cliente | Qualidade da carteira |
O Sebrae utiliza a lucratividade como a relação entre lucro líquido e faturamento e destaca fatores capazes de deteriorá-la, como redução da margem de contribuição, aumento dos gastos fixos, estoque de giro lento e crescimento das despesas financeiras.
Perguntas frequentes sobre como aumentar o lucro da empresa
Como aumentar o lucro da empresa sem vender mais?
A empresa pode melhorar preço médio, reduzir custos de compra, otimizar o mix, controlar descontos, reduzir despesas variáveis, eliminar desperdícios, melhorar o estoque, renegociar despesas fixas e reduzir custos financeiros.
Reduzir despesas sempre aumenta o lucro?
Matematicamente, uma redução de despesa aumenta o resultado se todo o restante permanecer igual. Na prática, cortes inadequados podem prejudicar vendas e produtividade. O ideal é eliminar desperdícios e custos de baixo retorno.
Aumentar o preço aumenta o lucro?
Pode aumentar significativamente quando o volume vendido permanece estável. A empresa precisa analisar elasticidade, concorrência e valor percebido antes do reajuste.
Qual é o melhor indicador para melhorar o lucro?
Não existe apenas um. Margem de contribuição, margem bruta e margem líquida são essenciais e respondem a etapas diferentes da operação.
Como saber quais produtos são mais lucrativos?
Calcule a margem de contribuição por produto e combine essa informação com giro, volume, estoque e recursos consumidos.
Produto de maior faturamento é o mais lucrativo?
Não necessariamente. Um produto pode faturar muito e apresentar baixa margem, alta devolução ou grande consumo de capital.
Cortar estoque aumenta o lucro?
Reduzir estoque improdutivo pode diminuir perdas e custos financeiros e liberar capital. Porém, reduzir indiscriminadamente pode causar falta de produtos e perda de vendas.
Vale a pena renegociar fornecedores?
Sim, mas devem ser analisados preço, prazo, frete, quantidade mínima, qualidade e custo do estoque. O menor preço unitário nem sempre representa o menor custo total.
Como reduzir despesas financeiras?
A empresa pode melhorar capital de giro, reduzir antecipações, renegociar dívidas e comparar custos efetivos das fontes de crédito.
Planejamento tributário pode melhorar a lucratividade?
Sim, quando identifica legalmente o regime, enquadramento, créditos e tratamentos tributários mais adequados à operação. O planejamento precisa respeitar a legislação e ser documentado.
A DRE precisa ser analisada todos os meses?
Para fins gerenciais, sim. Uma DRE mensal permite identificar rapidamente queda de margem, crescimento de despesas e alterações no custo.
É melhor aumentar as vendas ou a margem?
As duas estratégias podem ser combinadas. Antes de acelerar vendas, porém, é recomendável verificar se a operação atual possui margem saudável. Crescer com margem ruim amplia o problema.
Conclusão: antes de vender mais, faça cada R$ 1,00 vendido trabalhar melhor
A empresa da história começou acreditando que precisava aumentar o faturamento.
Vendia R$ 500.000,00 por mês e lucrava R$ 20.000,00.
A primeira meta seria chegar rapidamente a R$ 600.000,00.
Depois da análise, a gestão percebeu que existiam oportunidades mais próximas.
Compras poderiam melhorar.
Descontos não eram controlados.
Havia produtos de baixo giro ocupando capital.
Determinadas despesas fixas não geravam retorno.
A antecipação de recebíveis consumia parte importante do resultado.
A empresa iniciou várias melhorias pequenas.
O faturamento permaneceu praticamente em R$ 500.000,00.
Mas a estrutura da DRE mudou:
| Resultado | Antes | Depois |
|---|---|---|
| Receita | R$ 500.000,00 | R$ 500.000,00 |
| Lucro | R$ 20.000,00 | R$ 39.000,00 |
| Margem líquida | 4% | 7,8% |
O lucro aumentou aproximadamente 95%.
Somente depois disso a empresa retomou a estratégia de crescimento comercial.
A diferença era enorme.
Cada nova venda passaria a entrar em uma operação mais eficiente.
É isso que significa compreender como aumentar o lucro da empresa.
A resposta não está apenas em vender mais.
Está em aumentar a qualidade econômica de cada real já faturado.
Antes de buscar mais clientes, a gestão deveria conseguir responder:
Quais produtos realmente deixam margem?
Quanto os descontos consomem?
Onde está o estoque improdutivo?
Quanto os juros retiram do resultado?
Qual estrutura realmente gera valor?
Quanto de cada R$ 100,00 vendidos chega ao lucro líquido?
Quando essas respostas existem, faturamento deixa de ser o principal troféu da empresa.
Resultado e geração de valor passam a ocupar esse lugar.
Sobre o autor
Everaldo Pereira Costa
Contador — CRC/SC SC017622O3
Conteúdo elaborado sob perspectiva contábil, financeira e gerencial. Os exemplos são ilustrativos e devem ser ajustados às características operacionais, fiscais e econômicas de cada empresa.
Como aumentar o lucro da empresa?
Para aumentar o lucro da empresa, não é necessário depender apenas do aumento das vendas. A empresa pode melhorar preço, custo de compra, mix, margem de contribuição, estoque, despesas, produtividade e custo financeiro.
É possível aumentar o lucro sem aumentar o faturamento?
Sim. Se uma empresa reduzir custos e despesas ou melhorar seu mix mantendo a mesma receita, o lucro pode aumentar sem crescimento do faturamento.
Qual indicador deve ser analisado?
A margem de contribuição é fundamental porque mostra quanto as vendas deixam depois dos custos e despesas variáveis. Também devem ser analisadas margem bruta, despesas fixas e margem líquida.
Qual é a fórmula da lucratividade?
Lucratividade = lucro líquido ÷ faturamento × 100
